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Marginália
Tradução31 jul 2026

Um poema quase inventado

Mpor Marcelaqua
eu te vejo beber numa fonte com suas minúsculas
mãos deprimidas. não, suas mãos não são minúsculas,
elas são pequenas, e a fonte fica na França
de onde você me escreveu aquela última carta e
eu respondi e nunca mais soube de você.
você escrevia poemas loucos sobre
ANJOS E DEUS, sempre em letra maiúscula, e você
conhecia artistas famosos e a maioria deles
eram seus amantes, e eu te escrevia que tudo bem,
vá em frente, entre na vida deles, não tenho ciúmes
porque a gente nunca se conheceu. Estivemos perto uma vez em
New Orleans, meio quarteirão, mas nunca nos encontramos, nunca
nos tocamos. Então você seguiu com os famosos e escreveu
sobre os famosos, e, obviamente, o que descobriu
foi que os famosos se preocupam com
sua fama - não com a linda jovem que se deita
com eles, que dá para eles, e desperta
pela manhã para escrever em caixa alta sobre
ANJOS E DEUS. nós sabemos que deus morreu, nos disseram
isso, mas ao te ouvir eu tive minhas dúvidas. talvez
tenha sido a letra maiúscula. você era uma das grandes
poetas femininas e eu disse aos editores ,
aos publicistas , “ela, lancem ela, é maluca, mas é
mágica. não há mentira em sua chama.” Eu te amei
como um homem ama uma mulher que nunca tocou, para quem
apenas escreveu, de quem guardou fotografias. Teria
te amado mais se tivesse bolado um cigarro sentado
numa salinha te escutando mijar no banheiro,
mas isso não aconteceu. suas cartas ficaram mais tristes,
seus amantes te traíram. menina, eu respondi, todos os
amantes traem. não ajudou. você disse
que tinha um banco de lamentos e que era perto de uma ponte e
que a ponte era sobre um rio e que você sentava lá
e lamentava toda noite pelos amantes que
te machucaram e te esqueceram . Eu escrevi de volta, mas nunca
mais tive resposta. um amigo me escreveu sobre seu suicídio
3 ou 4 meses depois de acontecido. se eu tivesse te conhecido,
eu provavelmente teria sido injusto contigo ou
você comigo. Foi melhor assim.
An almost made up poem by Charles Bukowski
I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it' all right,
go ahead, enter their lives, I' not jealous
because we' never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame - not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they' told
us, but listening to you I wasn' sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, " her, print her, she' mad but she'
magic. there' no lie in her fire." I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn' happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn' help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.
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