← Margináliaresenha
Marginália
Resenha08 jun 2026

Riofundo, de Carlos Frederico Manes

Uma opinião literária sobre o livro de poesias de Carlos Frederico Manes.
Mpor Marcelaqua

Devo confessar que, apesar do famoso "não julgue um livro pela capa", eu não só o desobedeço como vou além: julgo também pelo título! Não me atirem pedras, muitas vezes eu me engano e a leitura me traz uma bela surpresa — ou uma bela decepção também, faz parte. Agora… um livro de poemas, um título quase que rosiliano (perdoem-me o exagero), uma capa tão profunda quanto o nome que a grifa, tão mínima quanto o corpo que a guarda… é claro que eu decidi ler essas poesias de uma só vez.

Riofundo é um desses belos conjuntos de poesia no qual as linhas responsáveis por colocar fronteiras entre uma página e outra ficam nos limiares. Os poemas se conversam, suas águas se tocam, fundem e se encontram no fundo de quem as lê. O poeta Carlos Frederico Manes faz com que a tarefa de escrever, de captar e representar a imagem em um poema pareça fácil, simples, mas sabemos que não o é. Em "Poesia e pensamento abstrato" Valéry discorre sobre a verdadeira arte que é transformar uma experiência vivida em uma imagem poética. Este brilhante francês em algum momento ainda recupera a máxima de Mallarmé de que versos não são feitos com ideias, mas com palavras.

Depois de muita dificuldade em escolher um único poema para uma verdadeira análise que traduzisse e refletisse todo o poder que este belíssimo livro de Carlos Frederico, preciso dizer que estive submersa nas águas desse poeta cujas palavras foram belíssimos instrumentos de trabalho — resultando, como não poderia ser diferente, na força tempestuosa desses versos.

No poema "PLACENTA", entretanto, gastei alguns ótimos minutos. Retornei nele após avançar umas páginas. Re-retornei ao fim da leitura. Re-re-retornei antes de escrever essa minha impressão e opinião. Transcreverei o poema a seguir para que tirem suas próprias conclusões, não quero ser eu a condutora da leitura que deve ser tão íntima. Mas teve algo aí, no limiar, nesta coisa que senti desde quando meu olho alcançou o título, a capa e as cores: a mistura das fronteiras! É na placenta que vidas se fundem a novas vidas se libertam. Se o poema nasce na placenta, como ele afirma a si mesmo, seria a fusão entre o eu-autor e o eu-lírico que, em um ponto sem luz e sem trevas, permitem esse nascer?

Placenta · Carlos Frederico Manes
Dentro de ti,
em secreto ponto
sem luz nem treva,
onde espantos de vida se fundem uma única,
inefável questão
além de toda transparência,
um poema forma-se.
← outros materiais