As sereias da pisadinha
Me perdi no espaço temporal entre o primeiro (e único) despertador e o sol gritante ocupando todo meu quarto pela janela. Acordei e conferi as horas: era tarde. Para quê? Não precisava sair. A cidade toda já estava acordada enquanto eu media a água e o pó para o café. 1º preciso filtrar o filtro para depois despejar o pó. Tomei meu primeiro e sagrado copo de água do dia e abri a gaveta dos remédios. Merda. Meu ácido valproico lá berrando sua caixa vazia e a bupropiona do lado exigindo recesso com ele. Teria que ir à farmácia. Tenho que ir. A receita digital deu algum problema. Merda. Merda de receita digital. Agora querem me obrigar a comprar mais remédio do que quero. Tenho consulta em breve, e se tiver que parar de tomar esse? O que farei com as pílulas? Olhei para minha gata me mordendo o calcanhar. Por que ela não me acordou hoje? O barulho da água anunciava sua temperatura ideal para a primeira filtragem então a obedeci. Faz um tempo que venho treinando meus ouvidos. Eu ligo o filtro para encher minha garrafa, por exemplo, e fecho os olhos. Mesmo assim, sei quando está completa. Agora está bem fácil, fica cada vez mais fácil saber quando está perto da borda. O barulho da queda da gota muda e eu sei exatamente o momento de parar. Primeira filtragem feita, pó no filtro. Segunda filtragem em andamento enquanto preparo a torrada. Hoje não vou comer ovo. Puta preguiça. O requeijão terá que bastar. Vou para meu quarto e ligo o computador. Preciso ler uns artigos antes da reunião - treino o ouvido e não a memória. Há barulho lá fora. Sempre tem barulho lá fora quando se está em São Paulo. De Seg. à Sáb. essa obra insistente e estridente. E eu me desespero. Já foi motivo de pelo menos duas sessões de terapia essa porra dessa obra. E pra piorar são duas na mesma rua. E ainda só tem terra. E eu tenho tanta raiva. De tudo. Fico olhando pra ela pela minha janela e imaginando quando tempo vai demorar até ficar pronta. E se terão outras. Infinitas outras atormentando meu dia. Merda. Ainda tá na fase da terra. Vermelha. Que nem minha bochecha de raiva. Que nem meu sangue de raiva. Que nem meu olho cansado. Abro o terceiro artigo enviado pela professora e releio algumas anotações minhas sobre as sereias de Ulisses. Esse canto eterno que atrai mundanos e os leva para longe - seja lá para onde e para quê. Penso primeiro no Zeca Pagodinho antes de pensar nos gregos. Era preciso tapar os ouvidos dos tripulantes para evitar a morte por afogamento no mar, o suicídio disfarçado de desejo - as duas pulsões. Odisseu sabia. Freud sabia. Hoje eu sei. Volto pro artigo - me sinto infinitamente presa nessa cadeira de escritório homérica enquanto uma SENTADINHA me invade o ouvido. Olha na tela. Ordeno a mim mesma. Olhos na tela. Olhos na tela. Foco na tela.
EUUU TO COM SAUDAAADE DAQUELA SENTADINHA QUE TU TEM
Caio no canto da sereia urbana do século XXI. Minha gata observa algo além da janela? Será que as sereias também a capturam nesta cidade? Não sei se ela olha a obra, os trabalhadores, as folhas mortas do vizinho ou algo que nem identifico. Para de perder tempo. Pego meu fone - sou Ulisses, cera e tripulante - e me preocupo pela gata totalmente entregue ao canto mortal da vida lá fora. Coloco uma música instrumental e substituo um canto por outro. Minha gata abandona a janela e se aconchega em meu casaco jogado no canto da escrivaninha. Maldito ouvido que treinei para água, esperta é minha gata que treina o descanso e desliga o ouvido.
Comentários · 3
deixe a sua margem
Parabéns! Dá muito prazer ler o que voce escreve. Continue nos presenteando com seus contos e poemas
Amei o jeito que é escrito a rotina, como algo que fazemos sem perceber fosse observado cada detalhe. AMEI!
Muito bonito 👏
