A vidinha de todos os dias
Acordou 6h para preparar seu café antes de começar seu longo dia na praia. Sabia que era preciso comer, mas não conseguiria. Talvez hoje até vomitasse debaixo daquele sol com todos aqueles cheiros de camarão frito - às vezes deliciosos, às vezes nauseantes. Ouviu dizer por aí que não se come camarão da mesma maneira em todos os estados do Brasil, mas, como saberia? O que poderia mudar? Tinha 17 anos e nem ao menos saíra de sua cidade. Nem na escola ia mais. Desde que seu pai adoeceu precisou ocupar seu cargo de vendedor de água de coco na praia. 4, 50 por unidade. Alguns turistas ficam muito surpresos, principalmente aqueles com sotaques. Ela sempre ouviu seu pai falar para os clientes mais jovens que era um valor especial de universitário. Para os mais velhos, ele falava que era um valor especial de aposentado. Desde pequena aprendeu que para viver é preciso falar o que querem ouvir - não importa o que ela quer falar. Mas não comeria hoje antes de sair porque bebeu muito na noite anterior, mais do que deveria. Mais do que 2 dias de bom movimento na praia. Era assim que as contas eram feitas em sua casa. Tudo se resumia ao valor de um bom dia vendendo água de coco. Às vezes achava inútil aprender todas aquelas contas matemáticas e todos os números na escola já que não usava nunca em suas conversas e seu pai nunca precisou pra viver. Claro, precisava sim saber os dias de venda de coco por mês - que eram quase sempre iguais - e os dias de venda de coco para os remédios do pai. Agora, graças ao pix, bastou imprimir uma única vez e plastificar um QR code e nem fazia mais contas de troco. Os turistas preferem assim e, pra ser sincera, ela também. O dinheiro de papel podia molhar e rasgar, mas ali não, ali era seguro e ela gostava de segurança. Além disso, decorou os valores múltiplos das unidades da água de coco, era quase impossível pedirem mais de 4 por vez e, se pediam, aqueles grupos de amigos ou famílias enormes, sempre dividiam o total entre si no pagamento. Mas costumava gostar de matemática na escola. Gostava de descobrir o valor de x, sentia prazer em solucionar os problemas. Uma vez, numa aula de português, aprendeu o significado de algo chamado epifania. Em filosofia, aprendeu que diálogos longos e sem certo ou errado podem acabar em um resultado de alguma maneira. Para ela, era assim com os números: a descoberta da personagem para consigo mesma repentinamente, o diálogo com o lápis, o papel e seu cérebro para solucionar a conta e encontrar o X. Gostava de pensar que talvez, se continuasse estudando, conseguiria entrar em uma Universidade Pública e, talvez, poderia ajudar seu pai com novos preços para a água de coco. Talvez. Mas não saberia agora o que poderia ter sido. O que importa é o que é. Seu pai começou a hemodiálise e logo enfraqueceu. O carrinho de água de coco agora era responsabilidade da filha que não mais trabalhava só quando precisava ajudar pelo alto movimento de dias específicos, mas que trabalhava todos os dias - mesmo quando a praia estava praticamente vazia. Mesmo em dias de aula. Mesmo quando precisava fazer a comida, lavar as roupas, a louça, a casa inteira. Mesmo quando era só ela, os cocos, e os números das ondas quebrando em gritos sincronizados em sua desordem. Tudo bem, não pensava mais nos estudos mesmo. Mas pensava em alguns números ainda, como os números que separavam diariamente as horas para a bebida do fim do dia, os números que precisava juntar para locomocao do pai até o hospital durante o mês, os números de gritos anunciando a melhor água de coco da região, a mais gelada e mais saborosa, que ela precisava dar para ter lucro. Lembrava de ter estudado sobre essa palavra na escola: lucro. Seu pai não a usava da mesma maneira. No começo tentou contestar, tentou explicar, mas não teve jeito e, hoje ela concorda com o pai e não mais com a escola. As palavras em si são inúteis quando seus significados deslocam. Por exemplo: se ela gastou X reais para comprar os cocos e no fim do dia conseguiu X+1 real, já está no lucro. Não precisava pensar em porcentagem, não precisava voltar pra casa com 2X para o pai. +1 real já era lucro, na verdade, dependendo do dia, 0,50 real já era bom.
Mas bebeu ontem porque era dia de jogo do Brasil e numa sexta-feira ainda por cima. Não entrou em bar algum. À princípio beberia 2 latas de cerveja na calçada da praia observando pelo telão enorme que um restaurante colocou na parte de dentro do estabelecimento. Ela ficou muito agradecida quando viu esse telão na estreia da seleção brasileira, ficou feliz por não cobrarem para ela assistir o jogo com uma boa qualidade e em um tamanho justo de copa do mundo. Mas também, como o restaurante cobraria? A beleza dos restaurantes à beira mar é justamente a vista que eles possuem e teriam que colocar uma cortina ou algo improvisado para proibir os que simplesmente passavam de não assistir. Sem contar que atraía turistas. Pensou que devia dar lucro. Então agradecia porque pelo menos não precisava ver os jogos em casa com seu pai. Primeiro porque o pai dormia o tempo todo. Segundo porque acabava se lembrando de como tudo era diferente há quatro anos e sentia uma raiva inexplicável que não sabia onde descontar e adorava os dias de jogo para descontar na TV - aprendeu com seu pai desde pequena que em um jogo todas as emoções são liberadas: desde os xingamentos mais sujos às lágrimas mais sinceras. E terceiro porque queria colocar no status de suas redes sociais que também frequentava lugares tão comentados pelas outras meninas de sua idade. Meninas que ela nem conhecia. Gente com quem ela nem estudou e que talvez nem tivesse nascido ali. Não importava. Era bom fingir. E era fácil também: bastava se aproximar e tirar uma foto tomando cuidado para não parecer que ela estava muito longe, do lado de fora. Sempre do lado de fora. Estava pronta para ir para casa no intervalo do jogo, já tinha devorado as duas cervejas e sabia que era perigoso ficar ali porque acabaria pegando mais no mercado e tinha um sábado de coco pela frente. E também a incomodava o fato de beber cerveja. Era normal em sua família que todos bebessem, sim, isso era verdade, mas aquelas meninas que ela olhava em seu celular nunca bebiam cerveja porque eram calóricas: elas optavam por drinks em dias de jogos. Mas uma colega a reconheceu e convidou para assistir o segundo tempo juntas. Perguntou sobre seu pai, demonstrou interesse genuíno e ela não pode dizer não. Gostou daquela sensação de ser lembrada. Sua amiga disse que pagaria pela cerveja e porção de camarão e o pior é que ela sabia que era verdade, mas não poderia deixar isso acontecer. Rapidamente, e sendo o mais discreta possível, visualizou o quanto tinha do pix de coco do dia e o quanto podia gastar. Talvez pudesse sim pegar uma cerveja. Quem sabe até não pedisse um drink para tirar foto. Mas diria que não estava com fome para não gastar com a comida. Trabalharia até mais tarde no final de semana e compensaria o prejuízo do álcool com jogo. Prejuízo: outra palavra da escola que para ela não fazia mais sentido - só sabia perder, de qualquer jeito, todos os dias, de todas as maneiras. Então fingiu que aquele lugar não lhe era estranho e entrou no restaurante olhando para o chão. O lugar realmente quase lhe era comum de tantas fotos que ela via lá de dentro, que acompanhava pela tela como se fosse sua própria vida. Encarava constantemente os garçons e as garçonetes, mas não no olho, claro, não tinha coragem; as encarava na nuca. Não se achava digna de encarar olho no olho. Se perguntou em silêncio se o que ganhava com 20 dias de coco na praia a garçonete ganhava em uma noite no restaurante à beira da praia. Talvez fosse um problema de localização. Será que se ela vendesse o coco ali, do outro lado do asfalto, seria mais de 4,50? E de onde veio aquele número de dias? Por quê 20 dias de coco? Não fazia ideia, não sabia nem por onde começar o cálculo para saber solucionar esse problema, para investigar esse X e, pra ser bem sincera, não se achava qualificada para esse ofício. Ouvia o tempo todo na praia as pessoas conversando de um jeito que ela não entendia e achava que precisaria falar com os gringos para trabalhar em um restaurante como aquele. Além do mais, não podia chegar em um daqueles trabalhadores e simplesmente perguntar o quanto eles ganhavam. Primeiro porque não era educado e seu pai o castigaria. Segundo porque era pecado ser mal educado e o outro pai o castigaria. E terceiro porque o garçom poderia contar pra alguém e ela seria motivo de risada. Já tinham tomado duas garrafas de 600ml que dividiram, 1 drink cada uma e 1 dose de cachaça também dividida não tão fraternalmente - nela o álcool parecia descer mais fácil, rasgando menos apesar de arder mais. Enquanto o jogo pausava para a hidratação dos jogadores, ela começou a se sentir mais confortável.
Quase alegre. Quase feliz. Quase do lado de dentro.
Desejou estar mais arrumada para a ocasião, gostaria de tirar uma selfie ali dentro. Percebeu que as garçonetes estavam mais bem vestidas que ela: suas maquiagens, sobrancelhas desenhadas, cílios enormes, unhas temáticas em verde e amarelo. Havia vida em todo lugar. Reparou no quanto sua amiga também estava arrumada. E as mulheres na arquibancada do jogo, todas arrumadas, mesmo quando flagradas, mesmo com filhos no colo, mesmo gritando, xingando, torcendo. Pediu mais uma cachaça porque o peito lhe foi coberto de uma vontade imensa de chorar. Tentou contar se conseguiria, um dia, levar o pai ao estádio antes de sua morte. Quantos cocos precisaria vender? Tinha que pagar os ingressos, o transporte e a comida durante os mais de 90 minutos. Queria que o pai tivesse a experiência completa. Olhava aqueles 22 jogadores no gramado e desejava ter sido filha de um deles para dar condições melhores aos pai. Quando percebeu o que pensou, quase chorou. Pediu desculpas internamente. Olhou os jogadores e quis ser a esposa de um deles. Teve raiva de si mesma por querer tão pouco para si. Tentou pensar no quanto uma jogadora de futebol ganhava, mas nunca nem assistiu um jogo delas. Seu pai achava ruim e ela só via o que o pai via: por isso também bebia cerveja, porque queria se sentir parte. Ouvia o pai dizer sobre a democracia do futebol. A magia do futebol em fazer com que todos pertençam, pobres, ricos, mulheres, homens, brancos e pretos. Esse pertencimento que ela tanto queria, mas não era capaz de sentir. Estava sempre do lado de fora. Se desconectou completamente de tudo ao seu redor, o barulho do jogo, o barulho do bar, o barulho da voz de sua amiga. Disse que precisava ir e transferiu em pix quase tudo que tinha na conta. Calculou o quanto precisava deixar para comprar uma garrafa de pinga, o café do dia seguinte e pão. Saiu transtornada daquele bar/restaurante e atravessou a avenida em direção ao seu hábitat. Observou as crianças da praia fazendo do coco suas bolas de futebol. A luz fina e ingrata da lua que de alguma maneira refletia no mar fez com que ela lembrasse a iluminação do estádio da TV. Fechou os olhos e deitou na areia bebendo sua pinga sem nem sentir o gosto. As crianças berrando não precisavam de narrador; as ondas batendo eram a torcida inteira e ela, mais uma vez, estava do lado de fora. Pensou que talvez, em algum momento, realmente estaria em casa enquanto caminhava para a sua. Pensou que, talvez, para mulheres como ela, é essa a vidinha de todos os dias. Não dá pra esperar mais do que se tem. A vida é o agora. Não adianta aprender os números que não se vai usar.
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