Você não merece mais esse cara
“Você não merece mais esse cara, Ruan Eduardo, não merece de jeito nenhum”.
O espelho repetiu os gestos invertidos.
“Olha pra você, bonito, inteligente, divertido, elegante, engraçado. Você não merece um cara assim, que te trata mal e te põe nas piores situações da vida”. Sorriu confiante, isso estava indo bem.
“Quem é você? Um campeão, uma máquina de vitórias. Cê não merece esse cara, Ruan, bola pra frente. Hoje é dia de mudanças”.
Saiu do banheiro otimista, pronto para se vestir. Era dia de virar o jogo e melhorar a própria vida. Afinal, quem é que não merece um amor bem vivido, um sorriso no rosto e dinheiro no bolso? Aquele jovem universitário com sequelas do álcool tomado para embotar as preocupações diárias também tinha o espaço dele garantido no paraíso da psique tranquila.
Ansiedade e crises noturnas? Nunca mais. Pensamentos suicidas recorrentes? Problemas do velho Ruan. Ele era todo sobre positividade e energias boas. Era tudo sobre deixar aquele velho cara para trás. Quem merecia um traste na vida assim? Ninguém. E também não ele, que não era todo mundo e não era ninguém, mas também não sabia quem era. Quem era ele? A partir daquele dia um homem livre. Respirou fundo. Estaria pronto? Precisava estar. Não podia mais continuar com aquela mentira, com aquela peça encenada todos os dias na frente dos outros, só para voltar para casa sozinho e se perguntar porque diabos ser feliz era tão difícil. O inferno é um quarto com TV ligada sem ninguém para ouvir o que se diz. E ele não ouvia o noticiário e nem as chamadas no celular, só o despertador tocando pelas manhãs avisando a ele que mais um infeliz dia se seguia.
A rotina era sempre a mesma. Acordava, escovava os dentes, tomava café da manhã, tomava banho, escovava os dentes, saía de casa para o trabalho. Em alguns dias, acordava mais cedo, ligava a esteira de corrida e partia em uma jornada para dentro de si buscando alguma solução para seus problemas. Já tinha emagrecido cinco quilos. As pessoas olhavam para ele na rua e assobiavam, Ruan era lindo. Uma pena que aquele cara não via isso. Mamãe já dizia para seu filho querido, “você é muito lindo pra ter pouco amor”, e por fora ele concordava dizendo que ia mudar, mas por dentro sabia não ser verdade nenhuma palavra. Mentir para os pais é pecado? Mentir para protegê-los é pecado? Mentir por acaso é pecado, se Deus nos promete vida eterna nos céus e põe o inferno com seus charmes no caminho? Se Deus mente passa a ser verdade? Talvez por isso o Diabo continue vivo.
Ruan seguia de pé, firme e forte, enquanto o firmamento passava por novas regras. Sobreviveu ao primeiro dia de trabalho depois da mudança. Sentia-se renovado. Chegou em casa, abriu a geladeira e tomou um iogurte de morango, adorava coisas de morango, estava muito feliz. Tomou um segundo iogurte e foi tomar outro banho, mais demorado, passando a mão pelo corpo atlético. Ele estava realmente mais forte. Saiu da água e se secou diante da TV mostrando a novela da tarde, que não acompanhava. Então, percebeu que tinha a noite inteira pela frente.
Não encontrou livros para ler.
As novelas eram chatas. Os noticiários, redundantes.
Na internet, ele só viu mais do mesmo.
Pornografia não o agradava. Pedir comida não o agradava. Sair não o agradava.
Não tinha com quem sair.
Só o mesmo cara de sempre.
Ele não queria mais aquele cara, não merecia aquele cara. Não era justo que aquele cara fosse a única opção da noite. Ruan tinha se prometido que não iria cometer os mesmos erros. Mamãe não aguentava mais vê-lo chorando em vão, frustrado pela vida de erros e acertos e erros e erros. Ele não aguentava mais correr na esteira pela manhã, mesmo que as pernas não cedessem mais. Ia horas ali, quilômetros, e só conseguia ir mais rápido, ficar mais forte. Como podia ir mal das pernas e correr tão bem? Sempre que tentava correr para dentro ele só corria para fora, para longe dos problemas.
O que era a vida dele sem aquele cara? Nada.
O que era a vida dele com aquele cara? Nada.
Foi ao banheiro e se olhou no espelho. O rosto triste, marcado pela derrota. Não queria mais, não seria fraco.
Por outro lado, era o primeiro dia, ele poderia começar de novo, poderia fazer uma pausa. O que seriam algumas horas de descanso? Diziam que a melhor maneira de cortar um vício era através de uma redução progressiva, não era possível cortar pela raiz. Talvez ele devesse começar devagar, por isso as outras alternativas deram erradas.
Ele não merecia mais aquele cara. Aquele cara não merecia o ser humano incrível que era, mas alguma coisa precisava ser feita para romper entre os dois, e ele não sabia o quê. Ligavam para ele, o celular vibrava na cama, decidiu não atender. Olhou-se no espelho, tão fundo nos olhos que veio a vertigem tomando-lhe o corpo e assombrando cada pedaço de pele. Arrepiou-se todo com frio e com medo. Estava sozinho.
Nunca mais aquele cara. Ele não merecia aquele cara. Respirou fundo. Uma vez, duas. Olhos abertos. Sentiu-se ridículo fazendo aquilo. Desafiando-se diante do espelho. Voltou para o quarto derrotado, encarou a TV com órbitas vazias. Era um esqueleto morto movido pela vontade dos outros. Não queria mais ser ele mesmo. Não queria mais ser aquele cara. Mas era a única pessoa que poderia ser.
Ele merecia mais, só não podia ser.
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