Marginália
Conto23 out 2026

Sobre Estar Presente:

Rpor Rodrigo Maroja

Aqui vamos nós, mãe, no oceano sem navios.

Tenha piedade de nós, tenha piedade do oceano, aqui vamos nós.

(Anne Carson, Decreation: Poetry, Essays, Opera)


Hoje, mais cedo, sentada na soleira de um dia semi-frio com chuva no final, sol em seus meados e gente andando apressada, prestei atenção na atividade esquisita de duas formigas no chão da minha casa. Uma delas estava viva, e a outra morta. Era algo estranho, quase perturbador, que me deixou inquieta, observadora. A viva rodeava o corpo da morta e logo pensei no enterro da minha mãe, em seu velório que ensaiava o litúrgico de tão luminoso; os raios solares invadiam a capela por suas janelas enormes e irradiavam as paredes brancas, tornando tudo muito nítido, digno, me permitindo enxergar a verdade que se esconde por trás de diversas camadas sujas de mentiras. A formiga que tinha vida por fim tocou o corpo da que estava morta e começou a carregá-lo sabe-se lá para onde; logo então pensei em Antígona reivindicando dignidade ao corpo de seu irmão. A formiga enfrentava obstáculos enquanto levava o corpo, o caminho não era livre para ela, como não foi para Antígona, como não foi para minha mãe. Subia pela pequena pedra diversas vezes, largava o corpo, movimentava as patas em desespero, talvez pensando no desafio, em como faria, em como seria o depois. Andava sozinha, depois voltava, pegava o corpo novamente e o largava logo em seguida. O chão estava molhado, e isso tornava tudo mais difícil, mas ela insistia, teimava, em razão do gesto de carregar o corpo ser também o próprio sentido de estar viva. Havia nela uma fé sem linguagem, uma força cega que não sabia o que era morte, mas ainda assim tentava cuidar do morto. Suas patas tremiam, desesperadas, e eu quase podia ouvir seu pensamento o que faço agora, o que faço com este corpo? O corpo da outra formiga, inerte, já começava a se misturar ao chão, dissolvendo-se em algo indistinto, como se voltasse ao pó de onde veio. E a viva, uma Antígona em miniatura, teimando contra a corrente da chuva,  ainda tentava dar-lhe um lugar. A formiga, então, demorava-se agora em torno do corpo, de modo que o círculo fosse uma forma de pensar. Parecia medir o espaço, calcular o impossível. Eu a observava, e por um instante tive a sensação de que o chão respirava, de que tudo aquilo, a pedra, a terra úmida, os pequenos movimentos, estava unido por um mesmo esforço de continuar existindo mesmo após a morte. Pensei no corpo da minha mãe e em como ele também parecia leve e inalcançável, por mais que estivesse ali, diante de mim, cercada de gente que falava baixo, que fingia compreender a ordem das coisas, mas que no fim não compreendia nada. Logo a formiga erguia o corpo morto e o deixava cair, voltava a tentar, dando ao seu ato um senso de homilia. Eu via o peso em seus movimentos e me lembrava das mãos que arrumaram o lençol sobre o rosto de minha mãe, aquele lençol de hospital, já com o cheiro da morte, e a forma como alguém ajeitou o cabelo dela, ensaiando um corpo para ser olhado uma última vez. Seria isto possível? A formiga insistia, como eu gostaria de ter feito. As patas finas sacolejavam, os grãos de terra se colavam nelas, o corpo que ela levava já se desfazia em pequenos fragmentos, e ainda assim ela o conduzia, desajeitada, incansável, sem rumo. A chuva engrossava. A água começava a arrastar restos, pequenas folhas, um fio de cabelo. E, no meio de tudo isso, ela persistia, fazendo a morte necessitar de testemunho, alguém que dissesse, ainda que sem palavras,  eu vi, eu estive aqui, eu te levei o mais longe que pude. O corpo da minha mãe também foi levado assim, entre mãos cansadas, lenços, flores, e aquele sol indecente que atravessava as janelas, insistindo em iluminar o que devia permanecer em sombra. Às vezes acho que foi esse sol que me fez começar a entender a forma lenta com que o mundo continua, mesmo quando uma parte dele para. A formiga, agora quase imersa na água, tentava subir pela pedra de novo. E quando eu pensei que ela finalmente desistiria, ela ainda se movia, tão pequena, tão obstruída, executando sua tarefa sem fim. A chuva engrossava. As gotas batiam no chão com uma cadência que apagava o som do mundo. A formiga agora estava quase submersa, mas ainda se movia, era uma partícula viva tentando salvar outra já entregue. As duas se confundiam; corpo e corpo, um tentando prolongar o outro.  A formiga continuava tentando atravessar a poça. O corpo que carregava já não responderia ao esforço. Não havia salvação possível. Nenhuma recompensa aguardava do outro lado. Ainda assim ela insistia. Essa é uma questão que me intriga desde a morte da minha mãe. Os mortos já não precisam de nós, somos nós que precisamos deles. Levei anos para compreender a estranheza dessa frase. Quando minha mãe morreu, fiquei um tempo inerte em relação ao que fazer com sua morte. Depois vieram o velório, o enterro, as flores, os documentos, os telefonemas. Vieram os objetos que permaneceram na casa. Vieram as fotografias. Vieram as histórias que passei a contar sobre ela. Tudo isso exigiu trabalho, muito trabalho. Mas para quem? Certamente não para ela. Os mortos já não necessitam de cerimônias. Não precisam de retratos em porta-retratos. Não precisam que seus nomes sejam gravados em mármore ou em tatuagem na pele. Não precisam de missas, de homenagens ou de datas comemorativas. Somos nós que precisamos dessas coisas, justamente, ou possivelmente, porque a morte produz um problema que não pertence aos mortos, mas aos vivos. O problema da continuidade. Como continuar vivendo depois que alguém desaparece? Como reorganizar o mundo quando uma presença deixa de ocupá-lo? Gosto de pensar que os cemitérios surgiram dessa dificuldade. À primeira vista, parecem cidades construídas para os mortos, mas basta caminhar entre os túmulos para perceber que pertencem aos vivos. São os vivos que visitam. São os vivos que limpam as lápides. São os vivos que levam flores, acendem velas e conversam em voz baixa diante das pedras. O cemitério é um lugar onde os vivos praticam a difícil tarefa de permanecer em relação com quem já partiu. Penso que algo semelhante acontece com os arquivos. Passei anos trabalhando com documentos produzidos por pessoas que já não existem. Cartas. Fotografias. Depoimentos. Cadernos. Assinaturas. Fragmentos de vidas interrompidas. Nenhum daqueles papéis interessava mais aos seus autores. Ainda assim, alguém os guardou. Alguém decidiu que não deveriam desaparecer. O trabalho do historiador talvez comece exatamente aí, na recusa do desaparecimento. Toda pesquisa histórica nasce de uma pequena insubordinação contra o esquecimento. Guardamos cartas pelo mesmo motivo que visitamos túmulos. Escrevemos biografias pelo mesmo motivo que pronunciamos nomes durante um funeral. Construímos arquivos pelo mesmo motivo que Antígona insiste em enterrar o irmão. Porque existe algo profundamente intolerável na ideia de que uma vida atravesse o mundo e desapareça sem deixar vestígios. Entendo que assim seja a memória, uma forma organizada de continuar carregando os mortos. Não para onde eles precisam ir, mas para onde nós precisamos levá-los.

Precisamos carregar os mortos por algum tempo para compreender que existiram. Precisamos acompanhar seus corpos até algum lugar porque a simples ideia de abandoná-los nos parece intolerável. Talvez toda cultura seja construída sobre essa recusa. Antígona sabia disso diante do irmão insepulto. A formiga parecia saber disso diante da chuva. Entre uma e outra existe uma distância imensa, ainda assim, ambas realizam o mesmo gesto elementar,  recusam-se a deixar um corpo desaparecer sem testemunha. Quando penso no velório da minha mãe, volto àquela manhã e à pequena criatura tentando mover o impossível. Hoje suspeito que ela não carregava apenas outra formiga. Carregava também uma pergunta antiga, o que devemos aos mortos? Não sei responder. Mas continuo observando.

Vi quando ela ergueu a morta pela última vez, as patas tremendo, e por um instante pareceu que conseguiria atravessar a poça, que o esforço teria algum sentido. Mas a água pesava demais, e o corpo escorregou, afundou um pouco, e ela ficou parada, olhando. Não havia desistência ali, apenas um silêncio antigo, o mesmo que paira sobre todos os rituais de despedida. Pensei na minha mãe de novo, no instante em que o caixão desceu. Eu a vi ir embora pela última vez, e o sol continuava implacável, abrindo luz entre as folhas, me obrigando a olhar. As pessoas se dispersavam devagar, com flores nas mãos e frases decoradas na boca fique bem ela está bem melhor agora eu estou do seu lado. Eu fiquei ali mais um pouco. Fiquei como a formiga agora ficava, imóvel, diante daquilo que não se move mais. O corpo da minha mãe parecia menor, quase irreconhecível, mas havia ainda nela uma espécie de presença, algo que resistia a ser nomeado, uma vibração discreta, lembrando a da terra depois da chuva, quando tudo parece ainda vivo por um instante. E então a formiga começou a se afastar. Deixou o corpo encostado na borda da pedra, e seguiu por um caminho que eu não via. Eu me inclinei, tentando acompanhá-la, mas ela desapareceu entre as fendas do chão, e por um momento pensei que talvez tivesse se fundido ao corpo morto, que o carregasse de outro modo, invisível. A chuva continuava. E o corpo da formiga morta, agora sozinho, começava a ser levado pela água, devagar, até sumir também. Olhei para aquele pequeno nada que restava, a marca úmida, o vestígio do esforço, e me perguntei se o luto era aquilo, observar o que desaparece e continuar, feito quem ainda carrega algo, mesmo depois de já ter largado. Minha mãe, a formiga, a chuva, tudo se movia dentro de um mesmo movimento. E eu ali, sentada, observando, era apenas mais um corpo tentando entender o trabalho de carregar outro.

Anos depois da morte da minha mãe, voltei a pensar naquela formiga enquanto assistia ao noticiário. Uma criança foi morta durante uma operação policial no Rio de Janeiro. A imagem aparecia repetidamente. O corpo marcado por tiros, carregado nos braços de uma mulher que descia uma escadaria correndo. A reportagem se encerrava. Outra notícia começava. O dia continuava. 

A fotografia de uma criança morta percorre continentes. Milhares de pessoas a observam, algumas choram, outras desviam os olhos, outras seguem rolando a tela do celular. A imagem continua existindo, o corpo também existiu. Mas quem o carrega? Fotografias podem sensibilizar, sim, mas também podem banalizar. A repetição incessante do sofrimento corre o risco de converter a tragédia em paisagem. Penso novamente na televisão ligada durante o jantar. Nos cadáveres apresentados entre previsões meteorológicas e propagandas de margarina, na familiaridade perturbadora com que aprendemos a reconhecer mães chorando, na velocidade com que o horror se converte em rotina. Possivelmente a questão não seja apenas quem morre. Possivelmente a questão seja quem permanece olhando. Ou melhor, quem permanece olhando sem transformar o sofrimento em espetáculo. Vejamos, Antígona não contempla o corpo do irmão. Ela interrompe sua própria vida para garantir que aquele corpo não seja abandonado. Sua fidelidade não está fundada na curiosidade e nem na piedade. Está fundada numa responsabilidade. A formiga tampouco parecia movida por curiosidade. Havia algo de obstinado naquele gesto. Uma recusa. Recusa em deixar o corpo sozinho. Recusa em permitir que a morte se confundisse inteiramente com o esquecimento. Penso que seja esta a função mais profunda dos ritos funerários. Não proteger os mortos, mas proteger os vivos da indiferença. Um velório nos obriga a desacelerar. O corpo permanece ali. Não podemos deslizar para a próxima imagem. Não podemos mudar de canal. Não podemos avançar para a próxima notícia. Durante algumas horas, somos forçados a permanecer diante da evidência de que alguém existiu. A morte, por ser quem é, exige presença.

Há imagens que parecem pedir alguma coisa de nós. Nem todas. A maioria apenas passa. Um casal atravessando a rua. Um cachorro dormindo sobre o cimento quente. Um turista sorrindo diante de uma igreja. Imagens existem aos milhões e desaparecem aos milhões. O mundo produz mais imagens do que memórias. Mas algumas permanecem, não porque sejam mais belas. Frequentemente acontece o contrário, permanecem porque carregam uma espécie de exigência. A criança morta nos braços de alguém em Gaza. O corpo coberto por um lençol. A mulher sentada diante dos escombros da própria casa. O homem olhando para um sapato abandonado no asfalto. Essas imagens sobrevivem porque não conseguimos responder inteiramente ao que elas nos perguntam. Durante anos pensei que o problema estivesse na morte, mas hoje suspeito que o problema esteja na distância. O sofrimento raramente acontece diante de nós. Ele acontece em outro bairro, em outro país, em outra tela. Somos informados dele, recebemos suas evidências. Vemos fotografias, vídeos, estatísticas. Sabemos quantos morreram, sabemos onde morreram, sabemos quando morreram. Mas saber não é a mesma coisa que acompanhar. Quando minha mãe morreu, passei horas olhando para seu corpo. Não por coragem, nem por amor. Talvez porque alguma parte de mim recusasse a velocidade com que uma pessoa se transforma em passado. O rosto estava ali, as mãos estavam ali, os cabelos estavam ali. Tudo permanecia, e, no entanto, algo já havia partido. Nenhuma fotografia de jornal jamais produziu em mim a mesma sensação. A fotografia mostra uma ausência que o velório obriga a habitá-la. E penso que os rituais funerários existam para nós, os vivos, não para os mortos. Os mortos não precisam mais de cerimônias. Somos nós que precisamos de tempo. Tempo para olhar, tempo para reconhecer, tempo para aceitar que alguém ocupou um lugar no mundo e agora não ocupa mais. Os antigos, e também as formigas,  pareciam compreender isso melhor. O horror de abandonar um corpo não estava na decomposição, estava no desaparecimento. Durante muito tempo pensei que permaneci no corpo da minha mãe por amor, hoje já não tenho tanta certeza. O amor explica pouco. Amamos pessoas vivas durante décadas sem passar horas observando suas mãos. Sem estudar a curva de seus cabelos. Sem decorar a forma de suas pálpebras fechadas. No velório, porém, eu olhava, olhava de maneira insistente, quase constrangedora, como se houvesse alguma tarefa a cumprir. Como se o próprio ato de permanecer ali possuísse uma função que eu ainda não compreendia. Às vezes me pergunto o que exatamente eu observava. Não era minha mãe, ou pelo menos não era inteiramente ela. Seu rosto estava presente. Suas mãos estavam presentes. Seu corpo estava presente. Mas algo fundamental já não estava. O que eu via era precisamente essa contradição. Uma presença atravessada por uma ausência. A morte produz uma espécie de problema visual. O corpo continua diante de nós, mas a pessoa já não responde. Continuamos procurando sinais. Um movimento mínimo. Uma respiração tardia. Uma correção do equívoco. Esperamos alguma coisa, não sabemos exatamente o quê. Em teoria, a função dos velórios é nos obrigar a abandonar essa espera. Permanecemos ao lado do corpo porque precisamos aprender, lentamente, aquilo que a razão já sabe e que o corpo ainda se recusa a aceitar. Que alguém desapareceu. Quando penso naquela tarde, lembro menos da minha mãe do que de mim mesma olhando para ela. Lembro do tempo. Lembro da duração. Lembro da estranheza de permanecer horas diante de um acontecimento que não podia ser modificado. Talvez eu não estivesse velando minha mãe. Talvez estivesse tentando compreender a ausência. Talvez todo ritual funerário exista para isso. Não para honrar os mortos. Mas para ensinar aos vivos que certas partidas não podem ser revertidas. Os mortos já sabem disso. Nós é que não.

Entretanto, sabemos que nem todos os cadáveres não recebem uma formiga. Nem todos recebem um velório. Nem todos recebem um nome gravado numa pedra.

Enquanto observava aquela pequena criatura insistir diante da chuva, pensei que a batalha de carregar um corpo parece tão elementar que quase o tomamos por natural. Mas basta olhar para a história para perceber que ele está longe de ser garantido. Existem mortos que ninguém reclama. Corpos encontrados em estradas. Corpos retirados de rios. Corpos enterrados sob números. Corpos que desaparecem. Talvez uma das violências mais profundas não seja a morte em si, mas a interrupção de tudo aquilo que normalmente vem depois dela. Não o fim da vida. Me refiro ao fim do testemunho. Os antigos pareciam compreender isso. O horror de Antígona não nasce apenas da morte do irmão. O horror nasce da possibilidade de que seu corpo permaneça exposto, abandonado aos animais, entregue ao esquecimento. O castigo não é apenas físico. É simbólico. Trata-se de apagar alguém do mundo dos vivos sem permitir que ele entre plenamente no mundo dos mortos. Há algo dessa mesma lógica nas valas comuns. Nos desaparecidos. Nos corpos sem identificação. Nas pessoas cujo destino permanece suspenso porque ninguém sabe exatamente onde estão, ou onde terminaram. Um corpo sem testemunhas ocupa uma posição estranha. Não pertence inteiramente aos mortos. Não pertence inteiramente aos vivos. Permanece preso numa espécie de fronteira. Por isso os familiares de desaparecidos continuam procurando durante décadas. Não porque acreditem necessariamente no retorno. Muitas vezes porque precisam de um corpo. De uma prova. De um lugar para onde dirigir a dor. Durante anos pensei que o oposto da memória fosse o esquecimento. Hoje suspeito que o oposto da memória seja o abandono. Esquecer é inevitável. Toda lembrança se desgasta. Abandonar é outra coisa. Abandonar é recusar-se a acompanhar. Recusar-se a carregar. Recusar-se a permanecer. Por isso certos nomes continuam sendo repetidos muito depois da morte. Por isso fotografias são erguidas em manifestações. Por isso mães caminham carregando retratos. Por isso existem monumentos, listas, arquivos, memoriais. Não para devolver os mortos, mas para impedir que desapareçam duas vezes.

Um cadáver deixado ao relento corre o risco de não se tornar memória, corre o risco de não se tornar história, corre o risco de não se tornar sequer um morto. Apenas matéria. Quem sabe toda comunidade humana tenha começado quando alguém decidiu permanecer ao lado de um corpo por mais tempo do que o necessário. Quando alguém decidiu que certas perdas não poderiam ser tratadas com eficiência. A formiga que observei naquela manhã memorialista não sabia disso. Ou talvez soubesse, quem sabe. Ela rodeava a morta sem pressa, tocava o corpo, afastava-se, retornava, tentava carregá-lo. Não havia utilidade naquilo que fazia, nenhuma vitória, nenhum futuro, apenas insistência. Observá-la me fez pensar que inevitavelmente a dignidade não seja uma qualidade dos mortos. Porventura seja uma qualidade dos vivos. Talvez a dignidade apareça precisamente quando alguém decide permanecer diante daquilo que está desaparecendo, sem desviar os olhos, sem transformar a perda em espetáculo, sem apressar seu desaparecimento. Apenas permanecendo. O que é mais difícil do que parece.

Hoje já não sei dizer o que a formiga fazia. Me questiono se estivesse tentando salvar a morta. Talvez estivesse tentando salvar a si mesma. Talvez não exista diferença. Continuo pensando nela sempre que vejo um cortejo fúnebre, uma fotografia de guerra ou uma mãe segurando o retrato de um filho desaparecido. Continuo pensando nela porque nenhum desses gestos altera o destino dos mortos. Nenhum os devolve. Ainda assim insistimos. Lavamos corpos. Acendemos velas. Escrevemos nomes sobre pedras. Construímos monumentos. Visitamos túmulos. Contamos histórias. Quem sabe a espécie humana seja apenas isso, um animal que se recusa a abandonar os seus mortos. Não porque a morte possa ser vencida. Mas porque o esquecimento pode. E porque existe algo intolerável na ideia de que uma vida atravesse o mundo sem deixar testemunhas de sua passagem. A chuva levou a formiga morta. Levou também a marca que seu corpo deixou no chão. Mas não levou a outra. Ela permaneceu. E eu também. A primeira morte pertence ao corpo. A segunda pertence ao silêncio.

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