Sob a bandeira da cólera: O tempo do amor, o amor no tempo
Mar 23, 2026
Nesta noite em que inicio este texto, acabo de terminar O Amor nos Tempos do Cólera (1985), ainda sob os efeitos quase anestésicos da literatura de Gabriel García Márquez, que insiste em apresentar um mundo que eu sequer imaginava poder ser descrito dessa forma. Desde um casamento que pode ser abalado por um simples uso de sabonete até as manias mais irritantes que culminam em abusos ou em provas extremas de paciência. No fim, tudo parece sempre à beira de se desfazer diante das exigências silenciosas da vida a dois.
O amor, aqui, é construído desde a urina que mancha a privada até os ressentimentos mais ferozes de uma relação. Não há elevação sem resto, não há ideal sem desgaste. Por isso, o tempo não se organiza como linha reta, mas como uma escrita irregular da vida. Como se fosse uma espécie de sucessão de memórias que, ainda que não façam sentido imediato, são profundamente sentidas. Mesmo quando parecem dispersas, ainda, revelam sua coerência na duração, como se o sentido não estivesse no encadeamento lógico dos fatos, mas na persistência com que são vividos.
Logo de início, somos apresentados a Fermina Daza e ao Dr. Juvenal Urbino. Casados há anos, encarnam uma forma de amor que já atravessou o entusiasmo e agora se sustenta na permanência. Há irritação, há rotina, há pequenos colapsos... mas há, sobretudo, continuidade. Não se trata de um amor ideal, mas de um amor que resistiu numa escolha cotidiano do outro. É justamente essa forma de vínculo que só se encerra com a morte que chega, ironicamente, de modo banal e quase cômico: Urbino morre ao cair de uma escada, no mesmo dia em que refletira sobre a morte ao testemunhar a de um amigo. A morte, aqui, é apenas o fim seco de algo que se sustentava.
Ao fim do enterro, como se o tempo não tivesse passado, surge Florentino Ariza. E sua declaração é brutal em sua simplicidade: ele esperou. Esperou por décadas. E continua amando. A partir daí, o romance nos arrasta de volta ao início — ao amor pulsante da juventude, que aqui não é leve, mas até doloroso. Ansiedades, insônias, desarranjos físicos, enquanto o amor se manifesta como sintoma. Florentino, ainda jovem, se apaixona por Fermina e passa a trocar cartas com ela em uma intensidade febril. Cada atraso na resposta da moça desencadeia nele reações físicas que mimetizam a cólera. Nesse ponto, em específico, que o romance articula um de seus eixos mais fortes: o amor como doença, como estado de descontrole, como algo que toma o corpo. A cólera não é apenas pano de fundo histórico, ela entra também como linguagem afetiva.
Florentino enfrenta o pai de Fermina sob ameaça, projeta uma vida inteira ao lado dela, organiza seu futuro em torno, como um eixo que se gira em torno a todo momento, dessa promessa. Seu trabalho com correspondências, inclusive, parece funcionar como extensão desse desejo de manter o vínculo, de sustentar a comunicação, de não deixar o amor morrer no silêncio. No entanto, quando Fermina retorna de viagem, enviada justamente para esquecê-lo, o que ocorre é uma ruptura seca, brutal. Em síntese, ela o rejeita como se, ao se concretizar, aquele amor perdesse sua força. Como se a promessa, enquanto promessa, fosse mais potente do que sua realização. Esse é um ponto decisivo: o amor como ideal suporta mais do que o amor como vida, no campo do que pode ser.
O rompimento não destrói Florentino, mas o reorganiza de forma indiscreta. Ele não deixa de amar, na verdade, ocorre o contrário... ele passa a viver em função disso. Sua existência se torna uma espera contínua, uma suspensão do presente em nome de um futuro que nunca chega — de uma promessa. E, ao mesmo tempo, ele vive: envolve-se com inúmeras mulheres, constrói uma trajetória marcada por excessos, por experiências particulares, por histórias que não são descartáveis. Cada relação adiciona algo à sua formação, à sua percepção, ao seu modo de amar. Só que é importante frisar que nenhuma substitui Fermina. Ele não é fiel no sentido convencional, mas é absolutamente fiel à ideia que construiu.
Fermina, por sua vez, nunca é passiva. Sua recusa inicial já demonstra uma autonomia radical, de certa forma. Ela não se deixa capturar por uma narrativa romântica que não a convence mais. Quando o Dr. Urbino entra em cena, o que se impõe não é uma paixão arrebatadora, mas uma reconfiguração do mundo ao seu redor. Urbino representa estabilidade, prestígio, ordem e, diante disso, o casamento se torna não uma imposição direta, mas uma escolha moldada por expectativas sociais densas demais para serem ignoradas.
Ela não o ama de início. Mas aprende. E esse aprendizado talvez seja uma das dimensões mais complexas do romance. Porque o amor entre Fermina e Urbino não nasce do excesso, mas da repetição que, em suas tentativas contínua de forma redundante, se torna um aprendizado de se conviver com o outro. Ele se constrói no cotidiano, nas pequenas negociações, nos atritos que não rompem, nas reconciliações que não precisam de grandes gestos. Mesmo atravessado por traições, o vínculo se sustenta. Nessa faceta do livro, o romance não por idealização, mas por uma espécie de compromisso existencial com a vida compartilhada. É um amor que não tem seu momento de explosão, mas ele sempre pode permanece.
Enquanto isso, Florentino continua esperando. Sua vida corre paralela, mas sempre orientada por esse eixo fixo: o dia em que poderá, enfim, viver aquilo que sempre adiou. Não há pressa, apesar da insistência. E essa insistência, com o tempo, deixa de ser apenas romântica e passa a ser quase estrutural. De forma direta, ele precisa desse amor para sustentar a própria narrativa de si.
Na velhice, após a morte de Urbino, o tempo finalmente se dobra. Florentino retorna, mas não como antes. Há cautela, há distância, há uma tentativa de reconstruir algo que não pode simplesmente retomar de onde parou. Fermina, agora, impõe ritmo, impõe limites, impõe forma na relação. Não há espaço para a fantasia juvenil dessa vez; o que se constrói precisa caber na realidade de dois corpos envelhecidos, de duas vidas já vividas.
A viagem de barco surge, então, como um espaço outro. Um intervalo. Um território onde o mundo pode ser suspenso para que algo finalmente aconteça. Ali, eles não são mais promessa nem lembrança, finalmente, são presença. Falam sobre a velhice, encaram o corpo, enfrentam o tempo. Há falhas, há constrangimentos, há limites, por fim e sobretudo, uma forma de amor que já não precisa se provar.
É nesse ponto que o gesto final de Florentino ganha seu peso real. Ao hastear a bandeira de cólera, ele não está apenas criando um pretexto para evitar o retorno. Ele está recusando o mundo. Porque voltar significaria submeter aquele amor, finalmente possível, às mesmas estruturas que o impediram por cinquenta anos: se pode listar às convenções, às interrupções, às exigências externas que sempre adiaram o encontro.
Quando o capitão pergunta até quando pretendem seguir assim, a resposta —“Toda a vida” — não é exagero romântico. É decisão como culminância. Eles não podem mais adiar o amor porque já passaram a vida inteira fazendo isso. O pedido para continuar, para seguir indo e voltando, é a única forma de sustentar aquele amor no presente. O movimento contínuo do barco cria um tempo próprio, um tempo que não aponta para fora de si, que não projeta futuro, que não retoma o passado. Um tempo onde amar não é mais esperar, mas viver.
O que o romance sugere, no fim, é que o amor não encontra seu sentido na duração cronológica, mas na intensidade com que ocupa o tempo disponível. Ele não é validado pelos anos, mas pelo modo como se realiza — ainda que tardiamente.
O amor não é só promessa. Não é só construção. Não é só espera. Ele é ato. Talvez seja isso que García Márquez nos oferece: não uma definição de amor, mas suas variações mais radicais — do delírio juvenil que adoece ao afeto que se aprende; da espera obsessiva ao encontro possível; do cotidiano banal à suspensão absoluta do mundo. Por isso digo que tudo que é amor, o que é ou como ele é, está nessa obra-prima.
Fermina, no centro de tudo, é quem atravessa essas formas. Não como síntese, mas como experiência mesmo. Ela vive o amor como promessa, como recusa, como construção e, por fim, como escolha consciente. Entre Urbino e Florentino, entre estabilidade e intensidade, entre permanência e excesso, ela não apenas decide, mas também transforma. Nesse percurso, talvez o romance nos diga algo mais difícil de aceitar: que o amor não é uma essência que se descobre, mas algo que se torna. Algo que se faz no tempo.
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