Quando eu passava pela PAC
Quando eu passava pela PAC vi três adolescentes levando dura de dois PM fazendo ronda. Vi que deixaram a menina ir embora, mas eu estava só passando, não vi o que aconteceu depois. A N. me contou ontem que mudaram o nome da PAC agora. Não vi a notícia. Não sei quando foi exatamente. Mas agora é Praça Tarcísio Delgado. O Tarcísio morreu no dia 12 de setembro do ano passado, 2025. Eu sempre confundo os nomes das ruas do Centro. Eu subi por uma delas, uma das que desembocam ali perto da praça, do CCBB e tal. Não lembro se foi a que tem o estacionamento da MedMais na esquina. Talvez. Eu nunca mais fui na MedMais, mas não tem tanto tempo desde a última vez que eu fui. Talvez eu ainda volte a ir lá. Talvez não. Acho que eu não quero, prefiro não ir lá. Eu me lembro do salão de entrada, onde a gente fica esperando ser chamado, acho que eu vou sempre lembrar. Mas também não vou me esquecer da sala de espera do eletro e da sala do eletro e de esperar no corredor na porta da sala do cardiologista e do cardiologista, ele era um cara estranho. E dos exames que ele pediu, eco, holter, na verdade tinha outros que eu esqueci, e encaminhamento pro pneumologista. Nada alarmante no eletro, nesse segundo eletro, depois daquele da UPA. Eu nunca vou me esquecer do estacionamento da MedMais, apertado, ruim de manobrar, ainda mais com a direção dura, que tinha continuado com problema – e o coração fraco, sofrido, disseram. Dia 21 de agosto do ano passado, 2025. E menos de um mês depois o Tarcísio morreu. Quem diria. Ele faria 90 anos em outubro. Pelo que eu vi, ele teve uma pneumonia e complicou. Não me lembro de ler que ele tinha ou tinha tido problemas sérios de saúde. Eu me lembro dele na TV em 2024. E ele não parecia que tava lá. E me lembro dos seus segundo e terceiro mandatos. Eu ainda era criança quando ele assumiu, mas tinha 15 quando ele saiu, em 2004. 2004. Vinte anos depois ele não era o mesmo. Muito diferente, parecia outra pessoa. Mas, quando eu paro pra pensar, ele já tinha 69 quando saiu. Nem parecia, devia ter saúde forte. Acho que ele merecia uma praça com o nome dele. Só não a PAC, que vai continuar sendo PAC. É burrice mudar o nome de uma praça que as pessoas nem chamam pelo nome, já chamam pelo apelido. Praça Antônio Carlos, Presidente Antônio Carlos. Que não foi presidente do Brasil, mas de Minas. Minas tinha presidente, a história do Brasil é uma maluquice. E Minas tinha um presidente sem sobrenome, ainda por cima. Pelo que me consta, pelo menos. Antônio Carlos é nome de zagueiro caneludo dos anos 90, não de presidente de estado. Estado nem tem presidente. E o Antônio Carlos zagueiro tinha sobrenome. Zago. Se não fosse zagueiro não sei o que mais ele seria. Talvez presidente de Minas, se abandonasse o sobrenome.
Então eu subi por aquela rua, eu acho. Da Getúlio até a Rio Branco. Mas não quis pegar o ônibus no Centro, no ponto ali da Halfeld, que é muito comprido e fica muito cheio e eu nunca sei onde o ônibus vai parar e os motoristas às vezes se fazem de bobos e fingem que não te viram com o braço levantado e passam direto. Igual aconteceu comigo uma vez, nesse ponto mesmo, da Halfeld, e era o último ônibus, o último horário. Nem acho que o motorista fez por mal. Acho que não devia estar esperando que alguém estivesse ali no ponto, acho que não deve ter muita gente normalmente ali. E não tinha muita gente ali naquela hora, nesse dia. Ele fica cheio durante o dia, mas não perto da meia-noite. Perto da meia-noite ele fica vazio, tava eu e meia dúzia de gato-pingado. Eu levantei e estiquei o braço, eu tava no meio do ponto, equidistante das duas pontas, porque nunca sei onde ele vai parar, e ele não parou, passou direto e eu só virei a cabeça sem acreditar. Depois eu xinguei, mas na hora não.
Em vez de ficar ali no ponto da Halfeld, apesar de ainda não ser horário de pico, mas no meio da tarde, eu subi mais um pouco na direção da Independência, pra pegar naquele ponto que fica perto da esquina da Oscar Vidal. Eu às vezes esqueço o nome da Oscar Vidal também, mas quem não esquece? O problema é que a Oscar Vidal é uma rua que eu nunca vou esquecer, apesar de nunca ter morado lá. Mas eu nunca vou esquecer que nos anos 70 ela foi cortada para estenderem a Santo Antônio, pra fazer ela chegar na Independência, que era nova ou estava sendo construída. Acho que era o Itamar o prefeito na época, porque, quando ele morreu, fizeram a mesma burrada que estão fazendo com a PAC agora e colocaram o nome dele na Independência, que ninguém chama de Avenida Itamar Franco e que ainda tem os dragões da independência nas calçadas até hoje, uma das coisas mais interessantes dessa cidade, aqueles monstrinhos de pedra portuguesa. Eu ainda me lembro de quando eu descobri o que aquelas imagens misteriosas significavam e de contar depois pra outras pessoas que não sabiam e eu nunca vou esquecer, é claro, e só espero que não eliminem todos eles um dia, que não sejam extintos, embora, para ser honesto, eu creia que já estejam em situação vulnerável (VU), com risco alto de extinção em médio prazo. Mas o Itamar foi presidente do Brasil e governador de Minas. E tinha sobrenome. E nasceu no mar, o que também é interessante. Juiz-forano nascido no mar. Como todos sabem, Minas não tem litoral, mas Juiz de Fora tem mar, tem mar, tem praia, tem surfista, tem até o “s” chiado às vezes, apesar de também ter o “e” fechado, acadimia e tal. E uai. E ele também foi prefeito. Ele provavelmente merecia uma avenida com o seu nome, mas não a Independência, que continua sendo Independência 15 anos depois.
Tiraram aquele relógio que ficava na padaria em frente, ou atrás, desse ponto, não lembro o nome dela, acho que mudou algumas vezes, ao lado de onde era o Veneza e agora é um laboratório, eu acho, ou uma livraria cristã. Talvez as duas coisas. Lembro do Titanic no Veneza. Acho que é minha única memória do Veneza. E eu sei que fui no Excelsior, mas não me lembro do Excelsior. Mas lembro muito do Palace, é claro. E ainda me lembro de quando existia o Cine São Luís, na Praça da Estação, mas eu nunca fui no Cine São Luís, é claro. E daqui a pouco vão mudar o nome da Praça da Estação, quando o próximo ex-prefeito morrer. O Bejani fez 75 no último dia 27 de setembro, duas semanas depois da morte do Tarcísio, ano passado, 2025. Ele foi prefeito duas vezes, mas ele foi preso, então não sei se vai ser ele. Mas talvez seja. O Mello Reis morreu em 2010 e ganhou só uma avenida escondida, que dá lá perto do aeroporto e da Rua das Margaridas, onde teve aquele sequestro famoso. E agora o A. tá trabalhando num documentário sobre o sequestro. Quem diria. Praça Bejani pelo menos soa melhor que Praça Custódio Mattos. Seria triste se a Praça da Estação passasse a se chamar Praça Custódio Mattos. Mas também é triste que a PAC agora seja PTD. Nem poderia ter esse apelido, parece partido, partido trabalhista democrata, bem genérico. Não existe esse partido, mas poderia existir e seria de centro, é claro. Mas o Custódio ainda tá vivo também. E o Bruno também, pelo menos eu acho que sim, mas ninguém nunca mais ouviu falar dele, o autor do suicídio político mais silencioso da história. A história dessa cidade também é meio maluca. A N. quer renomear a cidade, quer que volte a ter o nome mais bonito que já teve, Vale do Paraibuna. Juiz de Fora é um nome feio, é claro. Vale do Paraibuna é muito mais bonito. Mas Juiz de Fora tem personalidade, é um nome absurdo, quase inacreditável, tão burro que é, faz sentido que a PAC agora seja PTD e a Independência, Itamar. E que ao lado da Catedral Metropolitana, badalando os sinos todos os dias nos mesmos horários, uma padaria tenha tido durante anos um relógio voltado para a rua com um horário completamente errado. Acho que a cada vez que eu passava por ele, ele tava um pouco mais adiantado. Devem ter tirado ele porque mudou de fuso e não souberam ajustar. Talvez tenha morrido a pessoa que ajustava ele, tá cada vez mais difícil achar relojoeiro. Inclusive, eu deixei um relógio num relojoeiro numa galeria do Centro, já deve ter quase um mês. E eu preciso voltar lá pra buscar, porque não vou conseguir pagar o conserto agora e daqui a pouco eles acham que eu me esqueci dele e passam pra frente. Só não sei qual galeria foi, mas tenho a nota ainda, o endereço deve estar nela. Mas tiraram agora, não tem mais aquele relógio lá, atrás do ponto, pra confundir os passageiros no ponto e os frequentadores das missas da Catedral. Senti falta dele.
O ônibus cruza a Independência logo depois de sair do ponto, que já é bem próximo dela, passando a Oscar Vidal e a Rei Alberto, que não sei rei de onde foi, mas talvez de Minas Gerais, que já teve presidente com nome composto e sem sobrenome, então talvez também tenha tido rei com um nome só. Se bem que a maioria dos reis tem um nome só, pensando bem. E Juiz de Fora tem praça com nome de presidente estadunidense, então esse Alberto pode ser de qualquer lugar. Praça Kennedy, estupidez. E puderam mudar e não mudaram. E Rei Alberto. Quem quer que seja esse segundo, nenhum dos dois nunca ouviu falar no nosso Vale do Paraibuna e do Paraibuna, que não é o Tejo e nem o Mississippi. A R. brincava que nem rio ele é, que é um igarapé. Ele também não é o Amazonas, é claro. Mas a Praça Kennedy é outro lugar do qual eu nunca vou me esquecer, embora também nunca tenha morado lá. Mas me lembro da sua reinauguração, depois da reforma, e depois de negarem a mudança de nome. Lembro que o Tarcísio foi lá cortar a faixa e falar alguma coisa. E ela tava mesmo tão bonita. Porque a reforma tinha sido feita com carinho e com a mudança de nome em mente, que Kennedy nenhum nunca foi prefeito de Juiz de Fora, nem governador, presidente ou rei de Minas. Kennedy não merecia ser nome de praça.
Mas o ônibus cruza a Independência logo depois de sair do ponto, que termina na faixa de pedestres da Oscar Vidal. Da Oscar Vidal eu também me lembro porque uma das avós do I. morava lá e mais tarde a A. morou lá também, logo pra baixo de onde era o prédio do Diário Regional, que eu acho que não existe mais, mas talvez exista ainda. Mas a parte mais difícil agora é a Independência. Eu nunca mais subi a Independência. E nunca mais não significa muita coisa. E eu vou precisar subir a Independência em algum momento, mas ainda não precisei e vou tentar evitar enquanto puder. Mas um dia eu vou precisar. Eu me lembro do campo na Curva do Lacet antes da construção shopping, mas lembro de pouco. Mas não é ali o problema, o problema é atravessar até a Independência desde a Rio Branco na altura do Alto dos Passos, passando por dentro do São Mateus, atravessando a Moraes e Castro e o Alto dos Passos, subindo direto por aquela rua dos fundos do Bahamas 24h, passando por onde o C. morou uma época pelo menos, e continuando por ali, até dar no outro lado do São Mateus, atravessar a rua São Mateus e a Mamoré, naquela altura ali da Independência onde se sai, é ali o problema. Dali pra cima. E esse percurso. Mas eu só cruzei a Independência de ônibus, subindo ou descendo, no sentido sul. E é claro que há outras partes problemáticas e que me fazem pensar e me dão gatilho como dizem agora etc., mas o problema maior é ali, apesar de que passar ali perto do Carrefour também é difícil e toda a estrada já era e agora é pior. Mas ali, aquele trecho, onde eu nasci, eu e o A., já faz décadas, numa cidade diferente, ali onde choraram em maio de 1989, porque eu e o A. tínhamos nascido, ali onde me tiraram até as cuecas em junho último, e já tinha outro significado, e já me dava gatilho em outubro e setembro, naquele lugar, naquele pedaço da cidade onde eu nasci, e lágrimas de felicidade choraram por mim, em 1989, em outubro último, ali onde eu nasci, ano passado, 2025, 31 dias depois da morte do Tarcísio, duas semanas depois dos 75 anos do Bejani, data e lugar, queria esquecer os dois, mas não vou nunca, porque como eu poderia?
Comentários
deixe a sua margem
Ainda sem comentários — seja a primeira margem.