Marginália
Conto24 jul 2026

Por quê?

Jpor José Sabóia

Recife. Infinitamente junho. Praça das Humanidades, Universidade Federal de Pernambuco. Sol de satã depois da chuvinha que perdurou a manhã toda. Periga mormaçar. Duas garotas sentadas na Praça das Humanidades. É Recife, prolongadamente junho, sol em escala maior depois da sustenida chuva matutina, perigo de mormaço, duas garotas sentadas em uma das diversas mesas espalhadas pelo espaço verde que pouco-a-pouco se recuperava do cinza anterior. Entre assunto aqui e lá, um certo nome mencionado. Amalgamaram-se borboletas e canivetes em uma das barrigas de menina, quimera perceptível graças ao barulhento silêncio que passou a usar o espaço verde pouco-a-pouco recuperado do cinza como cômodo. Pauta puxada por uma delas:


“E com ele? Ainda falas?”, proferiu a dúvida, inocente, como quem do tempo quer saber, mesmo que o céu aos poucos azul escancare a resposta. Proferiu a dúvida, jornalista, sim, como quem começa uma crônica, mesmo que não-ficção.


A outra encarou a amiga, uma média encarada, ato precedido por um breve e sonoro “quê?”, cuja função, mais retórica do que verdadeira, era dar tempo à maquinação da resposta. Não esperou por repetições. Evitava os dramalhões — o teatro ficou preso no longínquo ensino médio —, as tragédias do cotidiano, e muito menos pretendia dramatizar o que por si já era trágico demais. Até que nem tão trágico assim, podia-se pensar, por outro lado. 


“Se ainda converso com João?”, paulatinamente cuspia sílaba-por-sílaba, a maquinação da resposta. “Não, não conversamos mais. Faz… ãh… algum tempo… hum… desde o término.”


E como era amiga Francine, a jovem pôs os ouvidos à escuta, num quê de curiosidade com requintes de pesar. Ruth e João, que outrora foram tão grudados, quase chegaram a ser um só, só andavam de braços dados por aí e por lá, e agora não conversavam mais? E pelo tom de Ruth, Francine não deixou de matutar: quantas noites Ruth pensou em João e João pensou em Ruth? E quantas manhãs João acordou pensando em Ruth pensando em João? Imaginou quantas tardes Ruth pensou em João pensando em João não mais ser e ser então Ernesto de las Neves, um guerrilheiro cubano que jamais conheceu uma Ruth ou que jamais dormiu pensando em Ruth pensando em João e/ou no guerrilheiro Ernesto de las Neves. Francine pensou em João, realista compulsório, acordando de madrugada descobrindo-se Machado de Assis e não mais João: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas", Francine até conseguia ouvir claramente João recitando a clássica dedicatória machadiana, como se fosse cotidiano. A sua cabeça estava no mundo da lua, muito mas muito longe da praça da universidade. O piar dos passarinhos. Época de fim do semestre, não faltava muito para o recesso de julho. A tosse de Ruth. Assustou-se. Colocou-se em órbita novamente — “terra para Francine; terra para Francine!”, pôde ouvir. Encerrado o fluxo de pensamentos, Francine por fim pergunta:


“Por quê?”, duas sílabas, pouco-a-pouco do cinza o verde, perigo de mormaço. “Pretende falar com ele algum dia?”


Ruth inclinou a cabeça em direção ao nada, em pleno silêncio, como quem procura refletir sobre uma pergunta que exige raciocínio, embora fosse um exercício repetido acerca do mesmo tema. A pele negra clara tocada pelo sol que ameaçava mormaçar. Os longos cachos castanhos harmonizavam com a linda boca rósea, que indicava alguma tristeza visível sobre a pele. A garota fitou a amiga, à procura de alguma resposta. E a resposta? Será que a tinha? Ruth sempre foi boa de ter respostas na ponta da língua, tanto as ferinas quanto as intelectuais. Indague-a sobre gramática, pois desde a infância era muito boa quanto à organização das palavras. Ou então fale de música popular brasileira, da nova ou da velha, já que escutava bastante com a mãe e o irmão, hoje em continente distante. Dê a ela algum caça-palavras, palavras-cruzadas, palavras-chaves, desde que fossem palavras que pudessem responder a maldita dúvida da amiga. Ruth mordiscava os lábios desnudos de batom: apesar da boca machucada pelas mordidas, que traziam uma vermelhidão, eram perceptíveis rosa-claro. Faça, então, alguma pergunta sobre o bairro da Várzea, porque lá morara até os dezoito, até que o salário da mãe apertou; sobre algum jogo que tanto jogara na infância por causa do irmão, porque era, sempre foi, doidinha pelo irmão mais velho, hoje em continente distante; pergunte sobre filmes, principalmente os favoritos dela, principalmente agora que aumentava o seu repertório cinematográfico. Eu mesmo sei que existem tantas perguntas que podem ser feitas para ti: as faria sem pestanejar, sem hesitar um instante sequer, sem pensar o porquê elas precisam ser feitas, apenas reconheço que precisam ser feitas e espero que eu consiga fazê-las logo. Pergunte sobre tudo, tudo mesmo, porque Ruth saberia discorrer, afinal, sempre considerou-se muito inteligente, tamanha expertise. Mas sobre João? Por quê?


“Não sei”, respondeu por fim. Escancarou-se o verde, finalmente. “Só Deus sabe, acho.”


Francine, pesarosa. nunca chegou a saber se aquilo foi um francine eu não sei só deus sabe ou se era um francine eu não sei não sei se gostaria de saber também, porque pouco tempo depois Ruth encontrou uma amiga e teve de partir, tchau!, e Francine ficou apenas a ver os passos desajeitados da amiga pouco-a-pouco se aprumarem, assim como se aprumou o céu azul de vez, depois de tanto pouco-em-pouco. Pairou no ar o pensamento por um tempão: francine eu não sei se gostaria que deus me contasse; francine eu não sei eu não sei se gostaria da mesma forma que deus soubesse; francine eu não sei.


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