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Marginália
Pitaco literário19 jun 2026

Na linha dessa ilusão

Rafael Faustinopor Rafael Faustino

      Parece que, apesar de “incomunicável” - como nos sussurra a voz de Drummond no primeiro verso de “Segredo” -, a poesia, sobretudo a de Armando Freitas Filho, faz por merecer nossa contemplação. Há um roçar silencioso entre o mistério dos sentidos e o não sentir nada; entre o querer e o não querer sentir, entre o devir que faz de seus versos uma espécie de lançamento poético para além da visão. No poema “Maré ou marasmo”, por exemplo, temos a vida se revelando na singularidade da onda, do gesto, na proximidade da finitude, num “sistema outro”, que, por sua vez, “exige ao olhar – atenção -!”.

      Em seu último livro Respiro, Freitas Filho nos permite encostar nas bordas, nas franjas, nos véus do fim, através de temas que margeiam a morte, a melancolia, a solidão e retornam às mãos do leitor, feito um presente vívido do mar. É sopro de alívio e ânimo, essa poesia, que, nos dias mais escuros em que a fundura é pouca, nos alerta sobre a necessidade de afrouxar o “ferrolho dos olhos”, as trancas das portas e dos armários para simplesmente balançar. Notem que esse “marasmo” insiste em assombrar o estado de alma do eu, que, desde o primeiro verso (“Salve-me de mim/ no mar, na maré de amanhã”), divulga seu pedido de salvação.

      Mas a temporalidade outra do poema se potencializa mesmo no ritmo, no quebrado (“onda por onda”) dissonante, que parece um espectro melódico de Béla Bartók. Esse rescaldo “crespo” das experiências vividas pelo eu lírico se pressente como um mergulhar nas palavras; está na experiência abissal do dia a dia, junto ao “segredo insondável” e úmido do mar. E, aqui, vale lembrar de Agamben: “o som e o sentido não são duas substâncias, mas duas intensidades (...)”, o que, no final do poema, junto ao assombro da “noite da véspera”, se evidencia na “nesga de nuvem”, que inunda os olhos com “uma gota de luar” (uma gota!) e salva.

      Assim, o leitor também se salva. E, salvo, já pode ir, desarmado, sentir mais “no fundo”, que, afinal, também deseja que o dia “não passe” igual, e que a vaga “não quebre nada” do que restou exposto ali: na “linha dessa ilusão”.

FREITAS FILHO, Armando. Respiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2024
Maré ou marasmo
Salve-me de mim
no mar, na maré de amanhã
onda por onda – crespas –
parecidas, mas no fundo
o sistema é outro
exige ao olhar – atenção – !
Se quiser descobrir, mergulhe
se não veja como se fosse igual
e o dia pode não passar
que é o que eu quero
que não quebre nada
se equilibre no marasmo
na linha dessa ilusão.
E a noite da véspera
pior como costumam ser todas
abre uma nesga de nuvem
que permite uma gota de luar.
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Comentários · 1

deixe a sua margem

Marcelaqua19 jun 2026

adoro suas leituras, é um presente poder lê-las