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Marginália
Palavras no rio13 jul 2026

Feliz aniversário, Rodrigo!

Rpor Rafael Faustino

Conheci Rodrigo na sexta-feira passada. Na ocasião, estava, por assim dizer, num estado de anima perceptivelmente alterado – “Será que cheirou?”, pensei. Estacionou a moto bem em frente ao prédio, confirmou o número do apartamento, o do código da entrega e largou as duas sacolas plásticas amarelas com força na calçada. “É foda! Os caras arrumam tudo errado, na pressa...” - disse. E continuou, com outra pronta reclamação sobre a incompetência dos funcionários da distribuidora, que estavam, desde então, separando tudo errado, de um jeito tosco e tal e tal e tal. “Ainda bem que não quebrou nenhuma!” – completou. Não conseguia, desde então, interagir com Rodrigo, mas me esforçava para emitir pequenos grunhidos, sons, rugidos, sinais. Eu ruminava, noutras palavras. Perplexo estava com aquela situação. “São sete?” – perguntou. “Isso.” – consegui responder. Rodrigo, com seus espasmos, se parecia com uma peça de Paganini, um conjunto de cordas, que tocava troppo liggero seu andante transtornatto. Assim, posto entre a calçada, o vão do portão e eu, bradava que não bebia nem cheirava nada, não. O que o aborrecia, de fato, era uma “mina do terreiro”, a Gracielly.

 

“Cara… ela é demais”, suspirou. Filha de Oxumaré, cruzada com Xoroquê e aparelho da Sete-Saias mais “ma-ra-vi-lho-sa!” que Rodrigo já conversou na vida. “Tu precisa ver a foto dela! Olha aqui, olha aqui...” – ele me estendia o celular, mostrando, entre inúmeras mensagens, uma comprovação cabível da beleza e do encanto da moça. “Eu estou apaixonado, velho...” – falou. Rodrigo, novamente: “Todo dia mando mensagem, acendi até vela pro anjo da guarda dela, acredita?!”. Não respondi. No entanto, reparava que as sacolas pingavam um líquido meio gosmento no chão. Derrelição, pensei. Rodrigo confessa:

 

“É que domingo é meu aniversário... Eu já sou sozinho, moro sozinho, não tenho família… não tenho ninguém (...) Não queria passar sozinho de novo, sacou?! Tava pensando em chamar ela pra jantar… mas só jantar!” – enfatizou. “Juntei seiscentos reais, tu acha que dá?!” – perguntou. Respirei, mais  tenso do que Rodrigo, como se pressentindo um lapso de desejo que me tomava desde o calcanhar. Quis abrir a primeira garrafinha ali. Não o fiz. Olhei fundo-fundo dos olhos de Rodrigo e vaticinei: “É que a paixão, desde Aristóteles, instaura na natureza humana essa perturbação… essa obsessão que você experimenta, compreende Rodrigo?”. Tomei mais ar: “Essa agitação toda altera visivelmente sua frequência, sua percepção da realidade, seu raciocínio, seu movimento, seu status. O páthos, Rodrigo… é um predicado variável, compreende? Isso nos faz ora tristes, ora desejosos, ora tensos, ora perdulários… presas fáceis, em busca de um ponto de inquietude inexistente, o qual, por sua vez...” – eu teria avançado um pouco mais, confesso, mas se deu a interrupção: “Seiscentos reais, tu acha que dá?” - Rodrigo…

 

“Claro que dá!” – respondi. Ele respira, soltando os ombros para trás, mais aliviado do que eu, que ainda tentava balbuciar que “a imaginação é o coração do desejo e que as imagens que ela evoca etc etc etc…”. E Rodrigo se aproxima de mim, encosta no meu ombro esquerdo e conclui, afinal: “Tá vendo? Tudo mudou…dá pra ver que tu entende de paixão”. Silêncio. Rodrigo parte, zunindo no ar. Exu? - pensei.  Ao passo que subia as escadas, com as sete garrafinhas, ainda mais “vagaroso, de mãos pensas”, esperando que Rodrigo tivesse um aniversário feliz.

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