Poesia30 jun 2026
Dos sonhos
por Jeniffer Silva
Peguei um pouco da minha história
e criei caminhos com ela.
Diversos.
Te conto três.
Há aquele de pedras,
cheio de árvores,
com o céu gris
onde nada nunca muda.
Uma melancolia insistente
dominava aquele lugar.
Andei muito tempo por lá,
querendo fugir de tudo;
fui bem longe da encruzilhada.
Pensei em não voltar.
Estava aflita, corrompida e,
quando dei por mim,
não queria chegar ao final daquilo,
onde as coisas tortuosas
eram gigantescas demais para suportar.
Voltei.
Demorei para chegar.
Os pés calejados
e o corpo cheio de feridas expostas
gritavam angústia e dor —
meu dilema agora
eram os outros caminhos.
Havia um muito curioso,
cheio de esquilos e bambolês.
Deparei-me com fobia de guaraná
e mastigação muito alta.
Não tinha medo dos insetos.
Eles eram encantadores.
Sapos e rãs, não.
Foi estranho ver um homem
com raio no rosto
e aparência de leão;
me fez lembrar dos cartazes
de bandas de metal da década de oitenta,
que deixavam rastros de agonia,
como aquele bochechudo
que cantava no balão.
Decidi voltar
porque era completamente desconcertante
estar ali.
O terceiro
tinha cheiro de rosas e begônias.
Tive que ajudar alguns honoráveis senhores
a velejar por mares de terras
com suas carruagens líquidas.
Eu fazia mágica.
Naveguei entre os meus devaneios
e fui nirvana
ao contemplar o canto dos passarinhos;
parei no tempo com tudo isso.
Cheguei aonde parecia ser
o meio do caminho.
Não queria ir até o final.
Senti um medo do inesperado e,
com muita tristeza,
voltei tudinho.
Algo poderia, e provavelmente iria,
estragar todas as lembranças daquele trajeto;
pelo menos me assegurei
de que nada deflagraria
minhas boas memórias.
Aqueles que me acompanharam
durante o percurso de volta
rebobinaram tudo o que vivi ali.
Esse foi um belo jeito
de ganhar um abraço.
Ah!
Havia um quarto caminho,
mas estava fechado.
Foi de onde vim:
dentro de um ônibus desgovernado
que me levou
sem ao menos considerar
o sinal de “pare”.
Fui expulsa;
em um segundo, fecharam-se as portas,
o veículo deu ré
e levantaram-se montanhas,
tapando a passagem,
como se ela nunca tivesse existido.
Mal me restaram escolhas
e, para alguém confusa feito eu,
como poderia decidir?
Como?!
Tive que vivenciar as direções,
construir as sensações
e destruir um tanto de tudo
para ser de novo
Na varanda,
vida, temporal,
mares, desertos
e os teus quintais.
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