Da impermanência: Caroline Policarpo Veloso e o silêncio
Cartografia do silêncio escapa ao que é um livro para se tornar uma experiência poética imersiva do que é esse ser metamorfo, Caroline Policarpo Veloso, mas também do que é carregar essa consciência sensorial do corpo: se ver em seu corpo e, muitas vezes, não se reconhecer; procurar um outro corpo, um outro alguém, cavar profundamente, longe do raso, olhar rochas e ver um corpo.
“
imagina carregar uma montanha
dentro do corpo
a cada passo a cada gesto
mover pedras
(imagina a dor nos músculos o cansaço)
//
imagina carregar dentro do corpo uma
pedra
vermelha
que sangra
(sempre)
“
Não quero decompor o que são os seus versos, seria o mesmo que profaná-los.
Mas se eu falhar, perdoe os meus pecados…
Me sinto abraçado por suas palavras, como se elas me lessem e não o contrário…
Em fragmentos que li, me senti compelido a escrever uma resposta, como se conversássemos através dos versos, através daquele sentimento entre o que é ser e a impermanência do ser, entre o que é carregar um troço qualquer dentro de si, algo que é seu e ainda assim não reconhecê-lo, não saber o nome, da voz extrair só o silêncio.


A fragilidade de cada verso de um jeito que dói, mas como se a dor fosse ensinamento, pele morta sendo extraída, sem ilusões de cura, apenas uma consciência sobre o próprio escoamento.
“
II
me dói tanto esse corpo de dentro
”
Machuca ter consciência sobre si.
“
estas conchas largadas pela areia
me ensinaram que morar é provisório
que até uma pele pode ser deixada
para trás
que é necessário às vezes
- ou sempre -
abandonar uma casa
lançar o corpo nu
pequeno e vulnerável
no mar aberto
”
Da impermanência.
Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a Caroline por meio dela mesma recitando alguns dos ecos dessa obra. Ao final do sarau, trocamos alguns pensamentos, quando dei por mim: passei a respeitar o silêncio, a pausa entre as palavras; algo que sempre me custou muito, pois o silêncio não escolhe hora nem lugar e ele chega da mesma forma que vai embora. Por coincidência, conversamos também sobre abraçar a estranheza, o desconforto da performance, como parte do ato. Eis que retomamos nossa conversa na página 89:
“
ultimamente aprendi a adaptar os versos
à minha falta de fôlego
para tropeçar menos na voz
e a carregar esse osso quebrando no corpo
das frases com um certo orgulho
como se a ferida inchada que me fez mancar
fosse uma forma de força
”
O encontro entre quem lê o poema e quem escreve é realmente algo que quebra qualquer espaço. Reconstruo o meu mundo depois de cada verso que me rasga, entrando pela boca enquanto falo em voz alta cada palavra em um tempo que acredito ser preciso. Não penso muito no ritmo; ele sai de mim sozinho, sou tomado pelas palavras.
“
o que é um poema? recebo a pergunta e tento responder. penso que tem muito a ver com encontro.
”
Me mudei para estas páginas e devo viver nelas por mais alguns dias, consciente de que um dia sairei, respeitando a impermanência.
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