Poesia25 jun 2026
Aconselho Tutelar
por José Sabóia
Criança,
peço para que não reclames do grito no ouvido.
Que foi o primeiro, duvido; tanto o último não será.
Criança,
me vem certa desesperança quando eu penso
que decerto ouvirás outros gritos em seu ouvido.
Criança,
aproveita enquanto o grito comemora o gol.
Chore somente quando do grito vier o choro
por causa do trabalho. Quando o choro pertencer à esposa, ao namorado; se pensando no pai amado, no gato morto, no papagaio mudo, no amor dado.
Criança,
chore no fechar de todas as portas;
no chorar pela sua tão amada cidade;
chore no anunciar do tarde telejornal:
"Recife alagou; afundou-se a Veneza".
Chore quando perceber que cessou o choro.
Criança,
peço para que não reclames,
tanto faz como tu te chames,
criança,
porque tudo passa tão rápido,
e quando tu menos esperar.
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